102012jun

Usar ou não usar o divã?…

Depois de pensar muito sobre o assunto, resolvi colocar minha opinião sobre o uso do divã na análise.

Gostaria de deixar claro que não sou contra o uso do divã. Mas também não sou a favor.

Antes que os psicanalistas amantes do divã me fritem, deixem eu explicar…

Sei que o conteúdo inconsciente pode emergir com maior facilidade se a pessoa estiver deitada no divã. Sei também que ele favorece a livre associação.

Mas o meu raciocínio segue outro caminho.

Se um conteúdo tornou-se inconsciente, é por algum motivo. Por isso gosto de trabalhar com a presença do ego.

Percebo que as coisas acontecem com mais velocidade com a permissão do ego.

Ao deitar-se no divã, a troca e a interação com outro ser humano através de olhar e da linguagem corporal são perdidas.

Uma das funções da análise é a troca que inevitavelmente ocorre através da transferência e contra-transferência. Penso que no divã essa é uma troca limitada.

O analista fica preservado, ele é poupado do olhar do analisando. Posição muito mais cômoda, é verdade.

Muito mais cômoda também ao analisando sobre outro ponto de vista, pois ele pode falar sobre sua vida psíquica como quem fala ao vento, sem “bancar” o que é dito. Quando uma pessoa diz a outra pessoa, olhando nos olhos, acredito que a integração do inconsciente para o consciente é maior e mais rápida.

Sei que preciso de muita coragem para defender essa ideia, mas essa sempre foi uma característica minha. Também sempre fui polêmica, então isso não é novidade.

O bom analista é aquele que consegue criar um ambiente de confiança, segurança e principalmente empatia a ponto do analisando conseguir se sentir confortável para relaxar e abrir as portas do inconsciente.

A livre associação pode não somente acontecer dessa forma como inclusive ser promovida. O papel do analista pode ser mais ativo nesse sentido.

Outro aspecto que penso ser importante no não uso do divã é que, nesse caso, o analisando vê o analista, o que pode transmitir ideia de certo controle ao analisando. Isso é muito importante para as pessoas com transtornos de ansiedade. Tirar esse “controle” pode precipitar uma crise de pânico, por exemplo.

Não quero dizer com isso que o divã é ruim ou que ele faz mal. Quero dizer que ele pode e deve ser opcional. Diferente do que exigem alguns profissionais.

A crença de que a análise só começa quando o paciente deita no divã pressupõe que a relação entre o analista e o analisando só pode ocorrer de forma “correta”quando o analisando “cede” ou concede a esse posicionamento ortodoxo.

É uma aposta muito alta na transferência.

Para mim a analise é muito mais do que isso. O analista bem preparado e que também faz e se mantém em análise, tem condições de observar e separar as associações do paciente da transferência e da contra-transferência. Ele tem condições de trabalhar com o material que emerge. Ao sentir, permitindo que as palavras do analisando toque sua alma (ou psique), o analista cria empatia e percebe através dessa empatia a dor do outro.

Ao sentir essa dor, pensar formas de trabalhá-la, compreendê-la e dar um sentido ao material coletado é a tarefa que pode ser executada olhando nos olhos de quem sente.

Note, não acho que o uso do divã é ruim, não é isso. Respeito quem gosta de trabalhar com ele.

Mas prefiro trabalhar de outra forma. E tem dado muito certo.

Não existe uma única fórmula de sucesso. Temos que tomar muito, muito cuidado com as teorias que se tornam religiões. Isso nos cega.

Estar aberto a novas formas de trabalho e a novas possibilidades é bem mai difícil do que comprar a fórmula pronta. Mas é o que dá espaço à criatividade, ao novo, à evolução.

Um abraço,
Renata
www.terapeuta.psc.br


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