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Traumas, sequelas e danos irreparáveis ?

Traumas, sequelas e danos irreparáveis ?

Hoje quero falar de uma espécie de terrorismo que anda pairando pela internet. O terrorismo do trauma insuperável. Da sequela eterna, dos danos cerebrais irreparáveis no bebê.

Primeiramente, é importante lembrar que existe pesquisa científica em várias direções. Tanto para reafirmar linhas teóricas a favor da resiliência, como para demonstrar o quão cruel podem ser os pais com os filhos e suas consequências.

Eu, como sempre, opto pelo caminho do meio. Já cansei de ver verdades científicas absolutas serem derrubadas por novas verdades científicas absolutas. No passado acreditava-se piamente que o autismo era causado por uma rejeição da mãe em relação ao seu filho. E que homossexualidade era um distúrbio. Hoje já sabemos que não é nada disso. Em ambos os casos há componentes genéticos e familiares. E a forma como são criados e amados os filhos não determinam orientação sexual, muito menos evitam o autismo.

Isso só para citar alguns exemplos. Poderia passar horas escrevendo sobre verdades científicas absolutas que deixaram de ser verdades de uma hora para outra.

Mas isso não significa que a ciência não tem seu papel. Tem sim. Mas em constante evolução.

Na minha prática de quase 20 anos de clínica, o que tenho observados é que extremos e radicalismo são sempre complicados. Eles privam o indivíduo de parte da experiência, a parte oposta aquilo que se defende veementemente. Parecem estar a serviço de algo maior do que se propõe, seja um complexo pessoal, uma carência e até mesmo um trauma da própria pessoa que pretende compensar e/ou resolver aquela situação psíquica mal elaborada.

Explico. Digamos que tive pais muito severos. Que me castigavam, me deixavam chorar por horas a fio, me batiam e eu me sentia muito mal com tudo isso. Para compensar essa história pessoal, hoje sou excessivamente permissiva, flexível demais e tenho muita dificuldade em exercer autoridade (não autoritarismo) com meus filhos.

Claro que isso é apenas um exemplo para ilustrar como funciona a compensação. E ela pode ter inúmeras formas de acontecer, mas é comum eu ouvir no consultório histórias como essa, onde quero ser o oposto do que foram meus pais ou exatamente como foi minha mãe. E junto aparece aquele hábito de chamar o  filho de coitado, em uma espécie de auto-piedade projetiva.

Então, a primeira pergunta que precisamos nos fazer é: “- Estou aqui defendendo essa ideia com tanta força por quê?… Isso não me torna cega(o) para outras ideias? Onde isso me pega?”

Feita essa pergunta, é necessário muita coragem para se abrir para a resposta. Às vezes isso só é possível após muitos anos de terapia, dependendo do caso.

Muito cuidado com axiomas. O Jung já dizia, minha teoria não está pronta. Deixo uma obra para ser pensada e repensada por quem vier depois.

Desta maneira, não consigo me convencer que o bebê não pode chorar, pois isso causará um dano cerebral. Não me parece nem um pouco natural uma afirmação dessas, mesmo porque na natureza é a capacidade de adaptação que garante a sobrevivência, capacidade essa vinda de alguém que cresce exercitando resiliência e não de alguém que cresce sem conseguir tolerar frustração como se fosse tão frágil quanto um cristal.

Sim, o bebê humano é mais suscetível do ponto de vista físico principalmente, mas isso não significa que precisa ser super protegido a ponto de necessitar de uma mãe-escrava disponível 24hs por dia 365 dias por ano ininterruptamente. Aliás, na estória da humanidade isso é bem recente. Mulheres comumente tinham muitos filhos e essa criação que se propõe viver uma simbiose prolongada era simplesmente inviável.

Água encanada, comida congelada, microondas, ifood, supermercados 24hs, frango na bandeja, frutas frescas o ano inteiro, antibióticos, analgésicos para dor de cabeça. Todas essas maravilhas só surgiram recentemente, após a revolução industrial.

Daí eu me pergunto como uma mulher que cria galinhas e as mata e depena para comer, busca água no poço, usa fogão à lenha, passa roupas com ferro na brasa, não tem geladeira, faz pão em casa, lava, passa, cozinha e limpa tudo para uma família numerosa, consegue amamentar vários filhos em livre demanda por anos a fio??? É impossível. Humanamente impossível.

Esse ideal de mulher disponível para o bebê em tempo integral é uma novidade, não um resgate. Óbvio que no pós-parto mãe e filho formam um par simbiótico. Mas gradativamente isso precisa, deve, é necessário, importante se diluir.

Frustração não causa danos cerebrais. Se fosse assim, a Europa inteira estaria babando colorido. O que é nocivo é o abandono. E ainda assim, muitos bebês em situações gravíssimas, como de abuso, violência e guerras, ainda esses têm demonstrado incrível capacidade de lidar com situações adversas.

Não precisamos criar um mundo “cor de rosa” para que nossos filhos cresçam saudáveis. Precisamos expô-los a doses suaves e gradativas de frustração, para aos poucos irem aprendendo a esperar, a lidar com ausências, a se ligarem a diversas figuras de afeto além da mãe.

O bebê que desenvolve essa capacidade no seguro ambiente familiar é muito mais saudável do que o bebê simbiótico que fica grudado no peito da mãe 24 horas por dia ininterruptamente. Que acha que o peito é a resposta para todos os males da vida, quando não é. Somos nós, mães, que temos a obrigação de ensinar gradativamente, com amor e segurança que peito é resposta para fome. Que calor é resposta para frio. Que tudo bem a mamãe ir ao cinema com papai pois ela vai e volta.

Passado o período normal de simbiose, por volta dos 3 meses, é muito importante que o bebê comece a entender, aos poucos, que existem outras pessoas no mundo além da mãe e que tudo bem se ligar a elas.

Por volta dos 5 meses, o pai começa a existir de fato e é ele que deve cortar o “segundo cordão umbilical” dizendo ao bebê: “essa mulher também é minha” e dizendo para mãe: “esse bebê também é meu”.

Esse “terceiro”, tem papel fundamental na saúde psíquica tanto da mãe, para que não se torne obcecada pelo bebê e possa resgatar sua individualidade, como para o bebê que aprende que eu e o outro somos distintos.

Esse é o começo de um longo e gradativo processo, necessário e saudável que alguns estão deixando de ver como algo natural, para dizer que é traumatizante.

Vamos repensar nossas ideias.
Um forte abraço!
Renata




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