22012jul

Rótulos e a dinâmica dos grupos

A menina que caminha pelo pátio sozinha durante o recreio. Aquela prima que ninguém gosta muito e todo mundo ADORA falar mal. O funcionário errado que toda hora toma bronca do chefe, por maior ou menor que seja seu erro.

Não é difícil lembrar várias situações onde notamos alguém excluído ou diferente que destoa do grupo.
E por que isso acontece?

Os grupos tem sua faceta sombria. E todo grupo tem.


Para tentar entender essa dinâmica, há muitos anos atrás eu li um livro fantástico chamado “O Complexo de Bode Expiatório” da Sylvia Brinton Perera Ed. Cultrix, para quem tem interesse vale a pena. Esse foi um dos livros que ajudaram a elucidar essa questão.


Jung já dizia que nossa consciência é dual, ou seja, ela separa o mundo e as coisas em opostos. Assim temos o bom e o mau, o claro e o escuro, o certo e o errado, o dia e a noite e por ai vai…

O problema começa quando não conseguimos admitir nossos próprios aspectos sombrios, precisando depositá-los no outro.

Assim, eu fico “limpinho” e o outro, eleito pelo grupo, é quem carregada a sombra repleta de “sujeira”.
Eloisa Pedrodo Fiori, em texto para o Instituto Reichiano diz :”O termo bode expiatório é utilizado para designar  indivíduos apontados como causadores de infortúnio. São apontados como causadores do mal e expulsos do círculo da família ou da sociedade para  livrar os acusadores da culpa, e para fortalecer-lhes o sentido de poder e integridade.”


Esse é o funcionamento dos grupos. Vemos assim nas escolas, na política, nas instituições, empresas e nas famílias.

Colocar o rótulo de bode expiatório em outrem trás um alívio e prazer imediatos ao acusador. Ele não precisa mais lidar com a sua própria sombra, basta projetá-la no outro. Assim tudo que é impróprio, inadequado, ou diferente dos padrões de comportamento estabelecidos pelo “Clã”, é expurgado na piada maldosa, no comentário cochichado ao pé do ouvido ou nos olhares cúmplices que se cruzam na sala de aula ou em qualquer outra sala.

Mas como todo relacionamento, o bode expiatório eleito, ainda que de forma inconsciente também contribui para que essa dinâmica ocorra. Fiori explica: “Estes indivíduos identificam-se com as inaceitáveis qualidade da sombra do outro e sentem-se responsáveis por algo além de sua parcela individual de sombra. Arcam além de sua própria sombra, com a sombra alheia.”


O cuidado aqui precisa ser maior no caso das crianças.

Quando nós pais exigimos mais do que a criança pode oferecer, quando passamos a ideia de que a criança não corresponde às nossas expectativas e que é inadequada, sem perceber podemos estar colocando-a no papel de bode expiatório.

Não é um processo consciente.

Esse processo só se torna necessário se nós não demos conta de nossa própria sombra.

Aos educadores fica a dica. Nas escolas a dinâmica de rotular um aluno, de afastar a criança mais sensível ou que por algum motivo destoa do grupo, favorece o rótulo de  bode expiatório e coloca a criança em um papel que muitas vezes ela vai carregar pela vida toda.

Precisamos começar a pensar em uma política escolar, familiar e social de inclusão, revendo nossos comportamentos, admitindo nossa parcela de culpa, de tudo o que julgamos feio e errado, para que o outro não seja necessário como lata de lixo.

É um processo longo, mas importante. Só assim acabaremos com o bullyng, com as panelinhas e começaremos a experimentar um novo modelo, onde cada um é responsável por seu lado menos “nobre”, seu lado errado, equivocado e imoral, sem precisar projetá-lo no outro, o que sem “sombra de dúvida” irá promover muito mais crescimento, auto-conhecimento e harmonia consigo mesmo e nas relações.

Pode parecer utópico, mas eu acredito.

Beijos e Abraços a todos que se propões a admitir e integrar sua própria sombra,
Renata


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