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Maternidade e a culpa, amor e limites

Quando minha filha mais velha nasceu, resolvi que seria uma mãe “boa o suficiente”. Resolvi que não cometeria os mesmo erros que minha mãe (ser humano) havia cometido, proveria as necessidades de meu bebê e não mediria esforços para que o mundo fora do útero fosse o mais confortável e amoroso possível.

Assim comecei minha primeira experiência de maternidade.

Ao primeiro “piu” eu corria e pegava ela no colo, interessada e querendo saber o que aquele sonzinho significava.

Nos apaixonamos. Eu por ela e ela por mim. Aquele ser dependente, uma bonequinha tão linda e tão pequenina…

Passei a provê-la de todas suas necessidades, evitando a todo custo que ela chorasse, que ficasse brava, que sentisse qualquer desconforto. Logo eu estava vivendo em função dela.

Ir ao banheiro era complicado. Tomar banho, ou ter um tempo só para mim começou a ficar difícil.

Como eu amamentava, ela passou a querer mamar toda hora, depois, a cada meia hora e depois a cada 20 minutos, durante o dia e a noite.

Em pouco tempo eu estava exausta.

Aos 8 meses eu resolvi que era hora de repensar meu comportamento. Não aguentava mais aquela situação. Nem minha filha, nem eu dormíamos. Meu humor estava péssimo e eu vivia cansada.

A primeira pergunta que eu me fiz foi: “Por que para mim é tão difícil dizer não para minha filha?”

Colocar limites, vê-la ficar brava, chorar, ou qualquer coisa que simbolizasse algum sofrimento era impensável para mim. Eu me sentia muito, muito culpada mesmo.

Para piorar a situação, eu era da linha que achava que a simbiose deveria ser total, ao menos no primeiro ano de vida e as mães que pensavam como eu era tão radicais, que diante da menor reclamação do bebê, já me olhavam com aquele olhar que dizia: “Você é uma megera malvada, pobre criança! Faça alguma coisa mãe psicóloga!”

Então eu comecei a perceber que a culpa que eu sentia era algo que vinha de fora e que reverberava dentro de mim. O olhar de outras mães, ou outras pessoas que achavam que deveríamos reproduzir fora do útero o paraíso perdido as custas do sacrifício materno, me incomodava demais.

E da onde veio isso?

Se a nós voltarmos no tempo, veremos que nossos avós tiveram uma educação bem diferente. Do ponto de vista histórico, faz pouquíssimo tempo que a psicologia existe. As pessoas educavam seus filhos de uma maneira muito mais dura. Nas escolas havia castigos físicos, como a palmatória. Estes castigos eram muito cruéis e frequentes. O abuso da autoridade, a falta de diálogo e o distanciamento, principalmente da figura paterna, era uma realidade nas famílias comandadas pelo pai provedor.

Por volta dos anos 60 e após o advento da pílula anticoncepcional, com a entrada da mulher no mercado de trabalho de uma forma mais significativa, deu-se início a um movimento contrário a toda essa cultura da autoridade e assim surgiram os profissionais que passaram a questionar as formas de educação vigentes até então.

Jung já dizia que para conseguirmos chegar ao equilíbrio, precisamos antes fazer um movimento forte no sentido contrário. Assim funciona a consciência, um jogo entre aspectos opostos.

Desse novo movimento, contrário ao autoritarismo, apareceram os autores que defendem essa postura materna onde a dedicação e entrega são totais e a mãe passa a viver em função dos filhos.

É uma ideia irresistível para quem acaba de receber um bebê nos braços. Dá vontade mesmo de largar tudo e só ter olhos para aquele pequeno milagre.

Nos primeiros meses de vida do bebê é normal e esperado que os pais se dediquem de forma quase que exclusiva ao bebê. Principalmente a mãe que amamenta. Mas aos poucos, por volta dos 6 meses de vida, é extremamente importante que o bebê gradativamente possa experimentar doses toleráveis de frustração.

Hoje já se sabe e Erich Noimann, especialista em desenvolvimento infantil já dizia, que os limites são tão importantes para o desenvolvimento saudável da psique, quanto o amor.

Colocar limites não significa ser ruim ou malvada. Significa sim, que em alguns momentos a mãe pode e DEVE dizer não ao seu filho. Esse “não” é um dos primeiros de muitos que irão acontecer pela vida e a criança precisa aprender em casa, em um ambiente seguro e amoroso a ser capaz de tolerar a frustração.

Dizer não e colocar limites inclui não amamentar um bebê de mais de 6 meses várias vezes durantes a madrugada (salvo sob orientação médica em casos de doenças específicas e/ou baixo peso). Isso gera um hábito ruim, prejudica as funções metabólicas próprias do sono e sacrifica a pessoa que se mantêm acordada durante a madrugada, por exemplo.

Sei que muitas mães podem achar que é cruel não amamentar um bebê que teoricamente estaria com fome. A ideia não é deixar o bebê passar fome, mas sim prover suas necessidades físicas e emocionais durante o dia e não durante a madrugada.

Mas dizer não gera culpa. E o olhar do outro dentro de nós acusa, como se a mãe que diz “não” fosse uma espécie de bruxa má a ser queimada na fogueira da simbiose.

Em um curto período, as mães simbióticas ficam cansadas, sem energia para outros filhos, sem tempo e vontade para dedicar ao marido, ao trabalho e ao próprio desenvolvimento. Só falam nos mesmos assuntos, filhos, escola, babá, viroses, pediatras, festas infantis, etc… Quando na verdade a vida é tudo isso SIM, e muito mais.

A longo prazo, a criança que não recebeu limites na infância e foi super protegida, fica infantilizada, insegura, dependente e muitas vezes mal educada. Alguns se transformam em tiranos, exigindo que os pais realizem todos seus desejos. Outros, na adolescência chegam até abusar de substâncias químicas, da velocidade dos carros, do sexo sem proteção, a procura desesperada por um limite, ainda que este seja o de seu corpo ou mesmo da morte, o único limite do qual nenhum de nós escapa.

Para não chegarmos nesse ponto, precisamos colocar limites em nossos filhos. Assim, vale a pena dizer NÃO.

Feliz dia das MÃES SEM CULPA!

Muitos beijos com muito carinho de outra mãe,
Renata
 www.terapeuta.psc.br


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