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Mãe que é mãe não dorme???

É verdade que mãe que é mãe não pode dormir? É verdade que para o meu bebê se sentir seguro eu preciso ficar com ele grudado no corpo dia e noite, 24 horas por dia 365 dias por ano por 2 anos ou mais? É verdade que se eu não fizer cama compartilhada meu bebê será uma criança menos feliz, menos amada?

Muita calma nessa hora.
Há uma grande confusão, para não dizer uma enorme confusão com relação a esse assunto.
Pessoal adora a Organização Mundial da Saúde, então vamos falar dela.
Primeiramente é muito importante entender que, segundo a OMS e vários autores que estudaram o desenvolvimento infantil, existe uma grande diferença do ponto de vista psicológico entre um bebê recém nascido, um bebê de 3 meses, um bebê de 6 meses, de 1 ano, 1 ano e meio e dois anos. Estes são marcos do desenvolvimento infantil, ou seja, os recursos psicológicos de um bebê recém nascido não são os mesmos de um bebê de 6 meses, que por sua vez vão mudando conforme ocorre o crescimento.
A amamentação é indicada até 2 anos ou mais, porém a OMS recomenda livre demanda para recém nascido e não para bebês de 2 anos ou mais. O desmame deve ser iniciado aos 6 meses de idade com o início da alimentação sólida. Iniciado não quer dizer que a mãe deve parar de amamentar. Significa que vamos começar a introduzir almoço e depois o jantar. Ou seja, vamos começar a estipular horários para as refeições.
Desta maneira, antes dos 6 meses é absolutamente normal o bebê acordar para mamar. Depois que a alimentação sólida é introduzida e o aporte calórico do dia passa a ser fornecido durantes as refeições, é importante que o bebê possa e consiga dormir durante a noite. É importante para o bebê e para a mãe. Privar-se de sono em nome da livre-demanda depois que o bebê tem mais de 6 meses não é saudável e trás consequências que podem variar de irritação e agressividade, até agitação e hiper atividade e em alguns casos depressão. Se a privação de sono perdurar, a consequência pode até levar a psicose.
A mesma OMS tão citada pelas mães, que recomenda a amamentação (e eu também sou super a favor da amamentação), NÃO recomenda a cama compartilhada.
E quais as diferenças psicológicas entre os bebês nas diversas fases da vida?
O recém-nascido precisa ser alimentado em livre demanda, precisa ficar grudadinho nos pais. A mãe de fato é um peito. O bebê enxerga pouco e por isso o bico do seio fica maior e mais escuro, justamente para que ele seja capaz de encontrá-lo. Mãe e filho ainda estão misturados. A saída do útero ainda é muito recente e precisamos dar suporte para que o bebê entenda que aqui fora o ambiente é favorável. As necessidades do bebê, nesta fase, precisam ser prontamente atendidas, para que o bebê forme uma base segura no mundo. Winnicott chamou essa fase de “fase autistica normal”.
Entre 2 e 5 meses, entramos na fase conhecida como “simbiótica”, ou seja, o bebê ainda não consegue ter claro que ele e sua mãe são duas pessoas diferentes. Amamentar (ou dar a mamadeira se for o caso) fazendo contato visual, sorrir para o bebê, a maneira como o seguramos, como fornecemos amor e afeto, a importância do toque e do contato pele/pele, tudo isso vai propiciando ao bebê entender que ele e a mãe são dois seres distintos. Aos 5 meses a presença indispensável do pai (ou de quem faça o papel do pai) fará o corte do “segundo cordão umbilical”. O pai precisa começar a atuar no sentido de romper a simbiose mãe e filho e permitir que a criança que se ligue a outra realidade psiquica além da mãe. Aqui começa a nascer uma identidade nova, um processo longo e gradual que precisa ser estimulado pelos pais.
Aos 6 meses ocorre uma grande mudança. A criança aprende a sentar e passa a ver o mundo de outro ângulo. Ela não apenas mama, mas começa a se alimentar e a ver a mãe de outra forma, ela já começa a perceber que a mãe não é apenas um peito, mas um ser inteiro e que vai e volta. Essa ideia de que a mãe existe, mesmo que não esteja na frente dela é subjetiva e precisa ser construida, vivenciada, para que a criança consiga se reconhecer como individuo único e separado. A mãe que permanece simbiótica após o período normal, dificulta esse entendimento de que ela e a criança são dois seres distintos.
Se o bebê vive grudado na mãe 24 horas por dia, depois da fase simbiótica, como eu já conheci várias vezes, casos de mães que não conseguiam se separar dos filhos nem para ir ao banheiro, se ele não percebe que ela e ele (bebê) são pessoas diferentes, se não há essa diferenciação, eu e o mundo somos a mesma coisa. Aqui está a semente das psicoses.
É na falta, na ausência, que o bebê maior consegue perceber essa diferenciação. Por isso ela é tão importante. 
Óbvio que essa separação não precisa ser longa demais a ponto de criar uma angústia insuportável. Ela precisa acontecer de forma gradativa e única em cada caso, mas precisa ocorrer.
Daí eu escuto que não… Que se assim fosse, todos os índios seriam psicóticos. Então eu pergunto, de onde tiraram a ideia que a índia passa o dia inteiro deitada na rede tomando água de coco amamentando por 2 anos ou mais sem fazer mais nada da vida ?… A índia sobe na árvore para “colher manga” e o bebê tem que esperar ela voltar, os índiozinhos muitas vezes são cuidados e amamentados por mais de uma índia ou por grupos de índias, enquanto outras vão plantar e colher. Sem falar que as organizações sociais variam enormente de tribo para tribo. Inclusive algumas tribos tem rituais muito cruéis e agressivos.
Há relatos que descrevem que os indiozinhos quando começam a engatinhar, se AFASTAM e VOLTAM quando querem, sem que haja preocupação com relação a isso. Ainda que existam tribos onde a mulher pare as demais atividades para se dedicar apenas a amamentação, é muito importante lembrar que as índias vão dormir quando o sol se põe e acordam quando o sol nasce. Elas não ficam na internet até altas horas da madrugada, não assistem o Jô Soares ou outros programas de TV. Não vão ao cinema sábado a noite, nem saem para fazer happy hour com as amigas. Se elas não tem forças, ou não querem fazer sexo com seu parceiro, ele comunmente tem outras parceiras para suprir as necessidades deles. 
Então, se vamos viver como os índios, vamos adotar todo seus sistema e não apenas uma parte, como se fosse saudável submeter uma mulher que vive em uma cidade cheia de lâmpadas e espera o marido chegar a noite em casa para jantar e assistir tv, depois conversar e ir dormir por volta das 22hs (nessas a índia já está dormindo desde as 18:30hs) o mesmo esquema de uma mulher com hábitos completamente diferentes.
Sem falar na hérnia de disco, afinal a índia teve seu primeiro filho na adolescência quando seu corpo é super jovem e acostumado a atividade física diária. Assim, ela consegue carregar um bebê ou mais (ou uma cesta cheia de frutos) o dia inteiro nas costas, enquanto na nossa sociedade a mulher passa o dia inteiro sentada ou parada, vai estudar, trabalhar, usa o carro, salto alto, o elevador, a escada rolante e quando o bebê nasce muitas vezes já está com mais de 30 anos e uma vida bem mais sedentária que a da índia. E quer se cobrar um comportamento idêntico?… Muito cruel.
E as mães de gêmeos? Ou tri gêmeos?… Cada vez mais comum atualmente, todas teriam filhos problemáticos pois é humanamente impossível amamentar 3 bebês em livre demanda por 2 anos ou mais, sem delegar, sem ter a ajuda de alguém que não seja a mãe, “terceirizando” os cuidados com os bebês.
Eu sigo tudo aquilo que passei 3 anos estudando (e até hoje estudo) durante o meu mestrado em psicologia clínica. No ínicio da vida, até os 6 meses de idade, é mesmo muito importante respeitar a necessidade dos bebês de ficarem bem próximos da mãe. Eu incluo nessa conta o pai que, quando faz parte do processo, não deixa a mãe tão sobrecarregada e propicia ao bebê vivenciar outro tipo de vínculo que é simplesmente maravilhoso.
Quando a mãe abre espaço para o pai fazer esse vínculo, usar o sling, acalmar o bebê que quando chora não precisa apenas mamar, mas muitas vezes pode ser acalmado e acolhido de outras maneiras, mesmo na fase oral. Quando o bebê experiencia outra realidade psiquica além da mãe 24 hs, ele passa a entender que ele e a mãe são seres distintos.
Da mesma maneira, pequenas ausências ajudam o bebê a perceber que a mãe vai, mas volta, criando o que Bowlby e Mary Ainsworth  chamaram de apego seguro.
Ao contrário, se a mãe é muito ansiosa, excessivamente protetora, não confia na capacidade do bebê de conquistar gradativamente sua independência e não permite que o bebê se separe dela, nem para dormir, teremos o que Bowlby/ Ainsworth chamaram de apego ansioso.

Com 1 ano o bebê começa a andar, mudando novamente sua forma de se relacionar com o mundo. Ele já tolera afastamentos maiores e se é seguro, não se apavora quando a mãe sai de perto pois sabe que ela volta.

Com 1 ano e meio em geral o bebê começa a se comunicar com palavras e dá início a um processo onde gradativamente não vai mais precisar chorar quando quer expressar algo. Aos poucos ele poderá dizer o que quer.

Com dois anos o bebê tem mais noção de tempo e espaço. Já se espera que ele esteja ligado a outras figuras cuidadoras além da mãe, como o pai, os avós e/ou outras pessoas da família com quem o bebê esteja acostumado a estar.

Ou seja, durante toda a primeira infância, o processo de autonomia, independência e nascimento da identidade do bebê é gradual deve ser incentivado pelos pais. O bebê recém nascido não tem as mesmas necessidades de um bebê de 6 meses, que por sua vez tem necessidades diferentes de um bebê de 1 ano.

Pode parecer óbvio, mas vejo muitas mães cuidarem de bebês de 1 ano como se tivessem 1 mês.

O sono segue a mesma linha. O recém-nascido precisa receber cuidados diferentes do bebê de 6 meses. Seu relógio biológico é diferente e suas necessidades psiquicas também. É absolutamente normal acordar a noite para mamar.

Com 6 meses, o bebê já tem mais resiliência, mais recursos físicos e psiquicos e já começa a ser capaz de dormir por um número maior de horas, principalmente quando começa a comer bem durante o dia. Assim não é mais necessário amamentá-lo durante a noite. Mas a amamentação pode e deve ser mantida durante o dia.

Parar de amamentar durante a madrugada, na nossa sociedade onde existe energia elétrica, internet, cinema, televisão, tablet, monogamia e as mães não vivem como as índias, é muito importante para garantir a saúde física e psiquica tanto das mães que amamentam, como dos filhos que precisam ter uma mãe descansada e disposta para cuidar deles e/ou trabalhar no dia seguinte, seja dentro ou fora de casa.

Temos direito ao descanso.

Um grande abraço,
Renata
www.terapeuta.psc.br

Foto: http://souzasantos.com.br/more/a-importancia-de-dormir-bem/


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