32014set

Como educar sem bater. Posso dizer “não”?

Sempre achei que extremos são perigosos e na educação penso a mesma coisa.

Dá para educar sem bater? Dá sim. Bater é totalmente dispensável. È possível educar sem dar nem mesmo uma palmada.

E educar sem dizer “não”? É possível? Eu particularmente não acredito nisso.

A educação é um processo contínuo que exige muita paciência. Educar é de fato repetir. Repetir inúmeras vezes até que que a criança consiga entender, por exemplo , que precisa escovar os dentes, dar a descarga, tomar banho, fazer a lição de casa.

Mas além de repetir, o “não” tem um papel muito importante.

Quando dizemos “não” para alguns comportamentos de nossos filhos, ensinamos a eles que existem momentos em que podemos e devemos dizer esta palavra. Seja para nos proteger, seja para nos impor, seja para deixar a preguiça de lado (não vou brincar, vou estudar, por exemplo).

Nossa sociedade é feita de regras. Não podemos matar, roubar, ferir. No caso de crianças, não podemos pegar o brinquedo do amigo enquanto ele estiver brincando. Não podemos morder, nem empurrar. No caso dos adolescentes as coisas começam a ficar um pouco mais complexas. Não devemos beber demais, nem fazer sexo sem camisinha.

Lembro me bem da minha filha mais nova quando ela queria colocar o dedo na tomada. A casa é segura e não é possível que ela coloque. Mesmo assim, sempre achei importante sinalizar a ela que aquilo é perigoso, mesmo que ela ficasse muito brava comigo. Da mesma forma, não pode colocar milho no ouvido do cachorro. Mesmo que isso pareça super interessante.

Há momentos em que conseguimos distrair a criança com outra atividade e mudar o foco. Mas existem aqueles momentos em que a criança insiste em uma ação, mesmo sabendo que é errada, mesmo sabendo que vai trazer danos (como no caso do cachorro) E ai? O que fazer?…

Já escutei muito que colocar a criança de “castigo” é um crime contra a humanidade. Eu discordo.

A palavra “castigo” trás mesmo um sentido pejorativo, talvez seja necessário criar alguma outra palavra que possa caracterizar o ato de parar uma ação e refletir.

Atendi um casal que não dizia “não” para o filho de 2 anos e meio. Achava que isso iria traumatizá-lo. O resultado disso, era um menino muito difícil. Ele gostava de jogar as coisas pela janela. Qualquer coisa, desde controle remoto da TV, até alimentos. O problema é que ele morava em um edifício e a qualquer momento as coisas que ele arremessava poderiam ferir gravemente alguém. O síndico do prédio já havia advertido e os pais já tinham explicado para a criança que aquilo era feio e que poderia machucar muito uma pessoa que estivesse passando. Mas o menino continuava a arremessar os pertences da família pela janela. Ele de fato queria um limite.

Minha sugestão foi que tirassem os objetos da mão dele e que ele fosse privado de brincar com o que tentava arremessar. Desta forma, toda vez que ele ameaçasse jogar objetos pela janela, a brincadeira teria fim. Ele teria que parar o que estivesse fazendo e ficar de “castigo” até entender que aquilo era ruim e perigoso para outras pessoas. Além do prejuízo que trazia para a família que havia perdido muitos itens da casa por causa do comportamento do filho.

Assim foi feito. O menino ficou muito bravo. Não sabia o que era frustração. Se jogou no chão, gritou, e chegou até a colocar a mãozinha na garganta para provocar o vômito. Os pais ficaram preocupados. Acharam que ele queria dizer alguma coisa, que precisavam acolher aquela dor.

Acolheram, deram colo, se mostraram compreensivos. Coitadinho, é apenas uma criança. O menino se acalmou, se abraçaram e assim que parou de chorar o menininho levantou-se e foi direto para a janela jogar mais uma bolinha.

Colocar limites é essencial. Erik Neumann já dizia: “Os limites são tão importantes para o desenvolvimento sadio quanto o amor”. Não tenha medo de colocar limites em seus filhos. Mesmo que eles fiquem muito, muito bravos com o “não”. Esse “não” será introjetado e amanhã ele vai conseguir dizer “não” para muitas coisas como drogas, promiscuidade, preguiça e delinquência. Se seu filho não escutar essa palavra, ele não saberá dizer ela.

Ficar de “castigo” é uma forma de mostrar a criança que as coisas tem consequências. E tem mesmo. Experimente chegar atrasado no dia do vestibular. Ou não cumprir horários/prazos no seu novo emprego. A vida não é um playground. Existem regras que precisam ser cumpridas. Se gradativamente vamos ensinando nossos filhos que existem consequências, que existe troca e que ele precisa fazer a parte dele na família, na escola e mais tarde na sociedade, vamos aos pouco construindo o caráter, formando um cidadão.

Mas ao contrário, se nunca há consequência nenhuma, nenhum tipo de “castigo”(impedimento ou pausa para a reflexão) para os atos errados, se eu posso fazer tudo o que eu quero que não há consequências negativas, meus pais vão continuar me dando tudo o que estiver ao alcance deles, indiscriminadamente, não preciso me esforçar para nada, eu crio a ilusão de um mundo fantasioso onde a ação e reação não existem.

É claro que esse é um aprendizado gradativo. É claro que teremos que repetir infinitas vezes frases como “você escovou os dentes?” ou “fez a lição de casa?”. Isso faz parte do processo da educação. Mas continuar premiando com presentes/passeios numa vida normal uma criança que não colabora, que não faz sua parte, não arruma seu quarto, não cumpre com suas obrigações de estudante, não ajuda nas tarefas domésticas, é o mesmo que dizer à ela que esforço é uma bobagem.

Disciplina e força de vontade são a chave para se alcançar qualquer objetivo. E para se ter disciplina e força de vontade, temos que aprender a dizer “NÃO” para desejos momentâneos, temos que abrir mão, fazer escolhas e muitas vezes sacrificar prazeres. Pergunte para qualquer pessoa bem sucedida quantas vezes na vida ela precisou se esforçar para chegar lá.

Disciplina e força de vontade se aprende pelo exemplo, mas também quando entendemos que na vida há consequências boas e ruins. Depende de nosso comportamento e de nossas escolhas.

Quando minhas filhas insistem em uma ação errada, nociva para elas ou para outros, elas ficam de “castigo” sim. E dessa forma elas aprendem que eu e o mundo não toleramos certos comportamentos. Elas aprendem a serem tolerantes a frustração e aprendem resiliência. Isso não diminui o amor que eu sinto por elas. Na verdade essa é uma grande prova de amor, pois educar e dizer “não” é muito mais difícil do que fazer todas as vontades das crianças.

Um abraço sem medo de educar,
Renata

Foto: http://www.rioeduca.net/blogViews.php?bid=18&id=3289


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