132014abr

Aspectos psicológicos e o sono dos bebês

Depois que lancei meu primeiro livro (o segundo está a caminho!), comecei a perceber um movimento muito interessante com relação ao assunto do sono dos bebês.
Eram mães, enfermeiras, psicólogas, médicos, pedagogas e uma gama enorme de profissionais interessados em trabalhar com o tema. Nos grupos da internet, acompanhava mães dando conselhos para outras mães com tanta propriedade que soavam mesmo especialistas no assunto.
Mas afinal? Quem está habilitado para trabalhar com esse tema?
O sono é assunto muito sério. Muito sério mesmo.
Para se ter uma ideia, um ser humano aguenta ficar mais tempo sem beber água e sem se alimentar do que sem dormir. Ficar sem dormir pode acarretar uma série de consequências, incluindo surtos psicóticos e psicopatologias associadas ou não.
Quando uma mãe me procura para resolver o problema de sono de seu filho, eu sei que esse é apenas o sintoma de algo muito mais profundo. Conseguir se separar durante a noite, durante o período em que mães e filhos mergulham em seus estados inconscientes é uma tarefa que exige recursos emocionais muitas vezes não disponíveis.
A insônia do lactente é uma resposta psicossomática a questões de relacionamento. Principalmente entre os pais e o bebê.
Isso exige do profissional que vai cuidar do assunto algo muito, muito importante: Conhecimento. E não me refiro a conhecimento básico, que se adquire em pouco tempo. Refiro-me a conhecimento que se adquire em uma universidade, em anos de estudo.
É mais ou menos como a medicina. Quando uma criança quebra o braço, eu posso providenciar um raio x, constatar a lesão e engessar o braço quebrado, esperando que o organismo faça o resto, simples, não?… Se eu consultar um ortopedista, provavelmente ele vai me dar exatamente essa instrução. Então para que procurar um médico se eu mesma posso engessar o braço da criança?
Porque apenas o médico sabe avaliar a gravidade da lesão, como o braço deve ser engessado, por quanto tempo, se é caso cirúrgico ou não.
Da mesma maneira, o psicólogo ou psiquiatra é aquele que está habilitado para avaliar os casos de insônia do lactante.
A insônia, ou dificuldade de iniciar e/ou manter o sono, pode ter inúmeras causas. Desde psicopatologias mais sérias, como autismos que variam em diversos graus, ou psicoses por parte da criança, até questões psicopatológicas dos pais, como bipolaridade, depressão, transtornos de ansiedade, dentre outros.
Não é como uma receita de bolo onde basta replicar. Mesmo as receitas de bolo quando seguidas a risca muitas vezes não dão certo. Sono e saúde andam de mãos dadas e o profissional que se propõe a trabalhar com isso tem uma responsabilidade enorme.
Ele precisa saber, por exemplo, a diferença entre um surto e um desabafo. Ele precisa saber a diferença entre tristeza e depressão. Entre excesso de sono e um problema na tireoide. Precisa saber que alguns bebês não dormem porque sofrem de angústias, de alergia alimentar, de refluxo (muitas vezes oculto) ou que na família está acontecendo uma crise como iminência de divórcio, simbiose mãe/filho, regressão de um dos pais, só para citar os mais comuns.
E onde a gente aprende tudo isso?
Na faculdade de psicologia. Não é em um curso de fim de semana. São 5 anos em período integral, onde aprendemos sobre anatomia, fisiologia, genética humana, psico farmacologia, psicopatologia, e muitas outras matérias além das várias teorias psicológicas e o manejo das situações. Fazemos estágio com supervisão, provas, trabalhos, seminários e vários estudos que nos habilitam a trabalhar com o ser humano.
No meu caso especificamente, ainda fiz pós graduação e depois um mestrado em psicologia clínica focado no sono dos bebês.
Ora, se fosse algo tão simples, para que estudar tanto?
Eu fico pensando, se uma criança tem febre, eu posso conversar com minha vizinha que tem vários filhos e ela vai dizer o que fazer. É virose. Dê Novalgina intercalando com Tylenol de 4 em 4 horas. Pronto! Se piorar muito, e der tempo, leve seu filho a um médico ou pronto socorro, mas só se for MUITO grave, se não ele não precisa de médico, basta alguém bem intencionado que já viveu muitas situações como essa e leu bastante sobre o assunto.
Parece absurdo? Febre pode ser qualquer coisa. Febre baixa 1 ou 2 dias, pode (ou não) ser nada e se resolver sozinha (ou não). Se a criança tem febre, isso é o SINTOMA de que alguma coisa não vai bem. E só um médico pode avaliar.
Da mesma forma a insônia do lactante também é um SINTOMA. Se a criança está sendo avaliada por um pediatra que descartou problemas físicos, é hora de encaminhar para um psicólogo ou psiquiatra devidamente preparado que vai trabalhar as causas psicológicas dos pais e do bebê.
Por tanto fica aqui essa reflexão. Se você procura um pediatra para cuidar do seu filho quando ele tem uma febre, procure um psicólogo ou psiquiatra devidamente habilitado para cuidar do seu filho quando ele não dorme bem.
Eu não procuro uma costureira para fazer a sutura de um ferimento na minha pele. Por mais parecido que seja o trabalho.
Fonte: http://www.tirinhasdoze.com/2010/04/psiquiatra-n-672.html
Um abraço, e boas reflexões,
Renata

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