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As Aventuras de Pi – Um olhar psicológico

Fui assistir ao filme “As aventuras de Pi”  e achei que valia uma reflexão mais profunda.

Percebi que o filme havia mexido muito comigo, mas demorei algumas horas para entender por quê.

Em um primeiro momento, a primeira coisa que se nota é a beleza estonteante do filme. Lindo demais. Em um segundo momento surge a questão religiosa: Deus é Deus em qualquer religião, o que muda é o nome e a forma como Ele se apresenta.

Depois as coisas vão ficando mais complexas… E é sobre isso que gostaria de falar.

Existe uma questão existencial super importante por trás dessa história e dos questionamentos de Pi. Um embate emblemático entre a VIDA e a MORTE que evidencia como essas forças, ou como diria Freud, essas pulsões estão presentes dentro de cada um de nós.

Vida e morte frente a frente em um diálogo aberto e franco.

Alguns detalhes me chamaram a atenção. Primeiro a maneira como o instinto está representado pelo Tigre. Algo que diferencia o homem do animal é a maneira como lidamos com nossos instintos.

Quando Pi diz ter visto a alma do Tigre e entendeu que o animal não lhe faria mal, seu pai mostra através de uma dura lição que não é bem assim… Nós projetamos nos olhos dos outros o que há em nós. Os animais não. Com exceção dos cães e gatos que estão há muitos e muitos anos domesticados (mas ainda assim são animais e por tanto tem uma limitação com relação ao ponto em que conseguem responder com “humanidade”), os instintos regem o reino animal. Por outro lado, esse mesmo instinto dominado em nós, precisa ser alimentado e cuidado para que seja possível a nossa sobrevivência.

É um equilíbrio muito delicado, refletido na relação Pi x Tigre.

A dicotomia está presente em todo o filme. O personagem do pai em oposição ao personagem da mãe, o céu e o mar, razão e emoção, vida e morte, medo e coragem, fé e descrença, consciente e inconsciente, fantasia e realidade, Deus e o homem e assim por diante. Como o próprio Jung descreveu, a consciência é  polarizada, ou seja, ela compreende a “realidade” através da separação entre os opostos.

Nesse sentido, penso que um dos objetivos do filme é propor o que também seria um dos objetivos da individuação, a união dos opostos. Por isso percebi que ao sair do filme, em um primeiro momento, fiquei confusa.

Seria tudo aquilo um delírio, ou a realidade? Foi então que percebi que toda a experiência narrada foi tão delírio quanto realidade. Talvez não tenha acontecido de fato como narrada, mas com certeza aconteceu para Pi exatamente como foi narrada.

A importância de olhar sua história da forma como Pi olhou, foi o que tornou possível sua elaboração. Foi o que tornou possível a sua sobrevivência.

Sem sombra de dúvida, o filme coloca a importância da fé. O fato de Pi crer em 3 religiões diferentes nos mostra como a religião em si não é o mais relevante e sim a fé. Essa fé, não precisa ter um nome ou um carácter dogmático, mas sim um carácter de crença na vida, na capacidade de superar os obstáculos, de que enxergar opção criativas no meio das tempestades. Se Pi fosse um cético ele teria sucumbido na primeira tormenta.

Outro aspecto que achei importante foi a pausa que acontece quando ele chega na ilha também polarizada, a questão do doar e do tomar como parte da vida natural que ao mesmo tempo nos entrega generosamente tantas maravilhas e por outro lado também nos leva o que entendemos como nosso, desde entes queridos, até a nossa própria existência.

Genial é a ideia do dente humano dentro da “fruta” (ou seria uma flor de lótus? Remetendo ao início do filme quando a paixão de Pi faz referência à ela?). O sinais estão por toda a parte. Soa como chavão, eu sei… Poderia escolher uma frase mais poética, mas eu acho que essa é a mais adequada. A intuição, função psíquica tão questionada pelo culto à ciência de nossa Era é algo que precisa ser valorizado. Sem ela nós simplesmente não percebemos parte da realidade que nos cerca e ficamos a mercê da razão que como toda boa falácia, pode nos confundir ou nos levar a conclusões equivocadas.

A ideia de colocar o dente dentro da fruta/flor me fez pensar de onde vem nossa intuição. No homem (no caso Pi) ela pode estar relacionada a Anima, ou seu aspecto feminino.

E por fim, quando Pi volta a civilização, seu Tigre parte sem dizer adeus. Nesse momento, a consciência e a razão assumem e mandando os instintos para a floresta do inconsciente, o mundo ao qual os instintos fazem parte.

Mas eu fiquei com uma dúvida. Depois de aprender a conviver com o Tigre, a literalmente domar os instintos, ficou parecendo que Pi não teve mais contato com seu “companheiro de viagem”. Uma relação tão importante e vital, um aprendizado tão rico… Será que Pi pôs em prática tudo isso em sua vida pós naufrágio?… Isso apareceu de alguma forma no filme?

Beijos e um ótimo final de semana!
Renata Soifer Kraiser


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