152012maio

Aborto espontâneo e o drama da perda gestacional

Hoje vou falar de um assunto delicado, o aborto espontâneo.


Esse assunto é delicado porque a maioria das pessoas acha que não devemos falar sobre isso. A mulher que sofre um aborto espontâneo passa por um processo de luto. Mas esse luto não é reconhecido pela sociedade. 


Quem passou por isso, como eu, conhece bem a dor que é perder um filho que nem chegamos a conhecer. Mas será que não chegamos a conhecer mesmo? Só conhecemos nossos filhos depois que nascem vivos? Ou será que a relação começa ainda no útero, ou até antes, quando sonhamos e desejamos a criança?


Perder um bebê é muito, muito, muito difícil. 


Quando me perguntam quantos filhos eu tenho, eu penso em 3, mas digo 2 porque pega mal contabilizar a terceira. Sim, era outra menininha que dei o nome de Sara. Mas eu não posso falar dela porque fica parecendo drama mexicano. As pessoas logo dizem, “não fique triste, se ela não veio é porque a natureza é sábia e fez o que deveria ter feito”. Como podem saber?…


Hoje existe em Portugal um projeto criado por Maria Manuela Pontes chamado Projeto Artémis que apoia mulheres que passaram por isso. Este projeto deu origem ao livro “Maternidade Interrompida – O drama da perda gestacional” Ed. Ágora, 2009.


Nele a autora colocou vários relatos de mães que passaram pela perda de um ou mais bebês. Ao ler o livro eu pude me identificar com a dor daquelas mães e isso fez com que eu me sentisse melhor. Mas confesso que quando comprei o livro, eu queria muito que ele me ajudasse a lidar com o luto, com a culpa, com a saudades e todos os sentimentos que rondavam a minha cabeça.



Sim, os sentimentos são muitos. Nessa hora com certeza absoluta vale a pena investir na terapia. Ter um espaço para falar sobre isso, para chorar a perda, parar e dar um significado a tudo o que foi e não foi vivido é muito importante.


Uma coisa que aprendi é que o tempo de gestação não é tão relevante quanto se imagina. Filho é filho e ponto final. A mãe que perde um bebê de poucas semanas sofre também. E esse sofrimento é legítimo e precisa ser respeitado tanto quanto a mãe que perde um bebê maior.


Os médicos que acompanham esse processo precisam ser sensíveis a esse fato, principalmente em tempos de inseminação artificial e em vitro. Muitas vezes a medicina se refere aos filhos de uma pessoa como embriões, sem considerar que são vidas e todo o significado que carregam. 


Uma das coisas mais difíceis do aborto espontâneo são as perguntas sem resposta. Os famosos “E se…” que rondam a cabeça da gente. 


Lidar com a impotência, aceitar o vazio e a dor que sentimos, sem negar a importância dos fatos nesse momento tão triste é um processo longo, porém necessário. Não adianta minimizar o ocorrido, ou fingir que nem ligou. Perder um filho é sempre uma perda difícil.


Nessa hora, se for possível, o pai pode ajudar muito. Ouvir, conversar sobre o assunto, abrir espaço para o choro e acolher os sentimentos que surgirem de ambos os lados, é algo que pode unir muito o casal. 


Unidos, fica mais fácil voltar a sonhar e acreditar que o projeto da família pode e vai dar certo; aos poucos vamos aprendendo a lidar com a dor, nos preparando para uma nova gestação, caso seja o desejo do casal.


A gestação seguinte costuma ser muito tensa. O medo de perder o bebê novamente é permanente e qualquer sinal de desconforto pode gerar muito estresse. Cada ida ao banheiro   é preocupante. Mas até com isso podemos aprender a lidar. 


No meu caso, depois da Sara, veio a Laura. Com todos os cuidados necessários, deu tudo certo! Mas no meu peito sempre haverá o cantinho reservado para a minha pequena que ficou pouco tempo conosco, mas que está sempre comigo, nos meus pensamentos, na minha memória e no meu coração.


Querida Sara, este post é para você, onde quer que esteja, com muito amor da sua mamãe,


Renata










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